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~ Vinícius & Caymmi por Cynara:

"Nunca vou esquecer aquela noite em plena primavera carioca, quase final de 64. Foi quando, pela primeira vez, Cyva, Cybele, Cylene e eu,  fomos conhecer o Caymmi para o show que faríamos no Zum Zum, levadas por Aloysio de Oliveira, que tudo armou.

E, lá, no apartamento da família Caymmi, na Barata Ribeiro, em Copacabana, aconteceu a primeira reunião para o show que mudaria para sempre a nossa história. Com  direção  e produção do Aloysio e arranjos musicais de Oscar Castro Neves, este foi o nosso passaporte para uma carreira que ainda não tínhamos certeza que existia dentro de nós, a de cantoras. Uma vaga idéia, nós tínhamos, mas este show a definiu por completo.

Chegamos à casa do Caymmi (era dia de aniversário do seu  casamento com a Stella), completamente ressabiadas, e, por que não dizer, tímidas e retraídas, com um certo receio de não agradarmos. Mas, não. Tudo deu muito certo, pois o casal, Dorival e Stella, nos puseram de tal maneira à vontade, que até começamos a achar que havíamos voltado à nossa Salvador. Já mandaram servir a cerveja, refrigerantes, salgadinhos, e a Stella fazia aquelas graças, que, mais tarde, compreendemos ser uma característica sua. Ela sempre foi uma mulher muito forte e decidida e com um humor ácido, herdado pelos filhos Dori e Nana. E o Dorival a respeitava e a adorava, é bom que se diga.

Depois de muito papo, Aloysio deu início aos trabalhos que, na verdade, eram acertos de repertório: o que iríamos cantar junto com o Caymmi? Afinal, também éramos baianas.

Oscar foi certeiro nas idéias do Aloysio e, já no final da noite, as coisas estavam claras. Com certeza teríamos a 'História dos Pescadores', 'Saudade da Bahia', 'Adalgiza', enfim, alguns hits do Baiano.

Isso tudo ficou acertado, até que uma surpresa bastante agradável aconteceu para todos nós. Vinicius, nosso querido e amado Poeta, ao saber da tal reunião e do tal show, ligou pro Aloysio e fez questão de entrar pra turma. E quem iria negar um pedido desses, vindo  do Poeta? Logo ele que, durante todo o ano de 64, esteve do nosso lado, nas festinhas, nos acontecimentos os mais diversos, incluindo aí, a trilha sonora do filme Sol sobre a Lama que participamos, com música dele e do Pixinguinha...e todos ficamos assim combinados: Vinicius entraria no show.  Não poderia ter acontecido coisa melhor.

E, assim, começaram os ensaios, benditos ensaios, onde a nossa convivência com estes dois seres completamente especiais se deu na mais pura harmonia. Foram momentos inesquecíveis, de brincadeiras entre todos, de relaxamento geral, com Vinicius fazendo suas chacotas e o Dorival dizendo frases incrivelmente hilárias. Morríamos de rir dos dois e nos divertimos à vera. Eles pareciam dois moleques arteiros.

Com Vinicius na turma, Aloysio  pediu ao Poeta umas 'letrinhas' especiais, para as 'vinhetinhas' que acabaram sendo uma marca do show. O Vinicius entendeu a proposta do Aloysio e fez todas elas usando o mesmo mote musical que já havia feito para a introdução de Minha Namorada, dele e do Lyra. As vinhetas ficaram lindas e marcavam exatamente os blocos que se seguiam. Numa delas, ele apresentava o Caymmi com sua 'História dos Pescadores'. Em outra, o Caymmi apresentava o Vinicius em seu poema 'O Dia da Criação'. Numa terceira, o próprio Vinicius nos apresentava como as suas 'menininhas, as quatro baianinhas'. E, assim, foi nascendo a forma linda e original daquele show que foi um marco da música brasileira, na época. Fizemos duas temporadas de enorme sucesso na boate Zum Zum, que ficava ali, na mesma Barata Ribeiro, em Copacabana, com casas completamente lotadas em cada uma das duas temporadas  que o show ficou em cartaz. Na primeira temporada que estreou dia 10 de dezembro de 64, ficamos ainda durante os meses de janeiro e fevereiro de 65. A segunda temporada aconteceu do mesmo jeito, um ano depois: dezembro de 65, janeiro e fevereiro de 66. Foi quando encerramos, com a tristeza de todos, o show que uniu num pequeno palco de uma boate de Copacabana, dois dos maiores nomes da Música e da Poesia Brasileiras. Paramos em pleno fevereiro para que o Rio de Janeiro pudesse ver o Carnaval chegar."

Cynara, pelo Quarteto em Cy - Maio de 2008

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